RESPONSABILIDADES MORAIS, NORMAS ÉTICAS




Se o mundo natural é regulado pelo acaso e pela oportunidade, e o mundo técnico pela, racionalidade e pela entropia, o mundo social só se pode caracterizar como existindo no medo e tremendo.
Daniel Bell


De muitas coisas podemos afirmar que quanto mais delas se necessita tanto menos facilmente estão disponíveis. Essa afirmação vale com certeza com respeito a normas éticas comumente acordadas, de que também podemos esperar que sejam comumente observadas: essas normas podem guiar nossa conduta em nossas relações mútuas — nosso relacionamento para com outros e, simultaneamente, dos outros para conosco — de sorte que possamos nos sentir seguros em nossa presença recíproca, ajudar-nos uns aos outros, cooperar pacificamente e derivar de nossa presença mútua prazer não corrompido pelo medo ou pela suspeição.

Percebemos diariamente com quanta urgência precisamos dessas normas. Quanto a nossos negócios diários, nós (bem, a maioria de nós) raramente encontramos com a natureza bruta, com toda a sua força primitiva, não-polida e não-domada; raramente encontramos artefatos técnicos em forma diversa de caixas pretas hermeticamente seladas com simples instruções de uso; mas vivemos e agimos na companhia de uma multidão aparentemente infinda de outros seres humanos, vistos ou supostos, conhecidos ou desconhecidos, cuja vida e ações dependem do que fazemos e que influenciam por sua vez o que fazemos, o que podemos fazer e o que devemos fazer - e tudo isso de maneiras que nem entendemos nem somos capazes de prever. Nessa vida, precisamos de conhecimento e capacidades morais com mais frequência, e com mais urgência, que de qualquer conhecimento das "leis da natureza" ou de capacidades técnicas. Todavia, não sabemos onde consegui-los; e quando (se) se nos oferecem, raramente estamos seguros de que neles podemos confiar com firmeza. Como Hans Jonas, um dos mais profundos analistas de nosso presente predicamento moral, observou, "nunca houve tanto poder ligado com tão pouca orientação para seu uso ... Precisamos mais de sabedoria quando menos cremos nela".

Foi essencialmente essa discrepância entre demanda e oferta que recentemente se descreveu como a "crise ética da pós-modernidade". Muitos diriam que essa crise remonta a muito tempo no passado, e que se poderia propriamente chamar de "a crise ética dos tempos modernos". Como quer que seja, essa crise tem suas dimensões práticas e teóricas.
[...]
                                                                                                              Zygmunt Bauman


BAUMAN, Zygmunt. Responsabilidades Morais, Normas Éticas. In: ______. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997. Cap. 1, p. 23-24.

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